Textos


Peras e Tantas
Memórias Italianas
 
Peras, foi só vê-las na própria árvore e todos os sentidos acordaram memórias. Pessoas, alimentos, costumes, o bairro e a vida de  outra época feliz – pelo menos para o menino que achava tudo muito inusitado.
 
As peras acordaram o menino e o adolescente.
 
Fui comer peixe naquele restaurante e para não perder o  costume de observador fui bisbilhotar os arredores. E no quintal do estabelecimento todo um mundo que uns chamam de granja, chácara, outros de sítio, quinta ou, para o mineiro, é mesmo   “área dos fundos”:  com jardim, pomar, galinheiro, horta e pomar.  E não podia faltar o Rio das Mortes – mortes entre emboabas e bandeirantes. Para os citadinos é rio da vida como um dos poucos recursos hidráulicos que abastecem os veios que irrigam as cidades próximas.
 
E lá estavam aquelas peras em suas pereiras lembrando às vezes que saboreávamos estas  frutas na varanda do vizinho. Ou quando outro da rua ofertava uma baciada de pera-cascalho boa para as compotas repletas de cravo da índia.
 
Ou a própria pereira no sítio do pai do amigo  na Colônia onde se ia no início da juventude.
 
Aquelas peras trouxeram também as charretes dos colonos que na cidade iam vender suas hortaliças, frutas e flores. Quando não a do leiteiro,  queijos além do leite. Acho que o último que persistiu até o final dos anos sessenta foi o Sô Chico. Sua medida era um caneco que ele improvisara asas de latão. Não havia bactéria, se havia não resistia à fervura, se resistia nos imunizavam  de outras por tão habitual que era a falta de higiene que havia naqueles dias. 

 
Se o último leiteiro de charrete foi esta figura que a memória guardou o seu vocativo, a última charreteira foi a D. Angelina. Lá vinha ela com sua charrete repleta de ovos, verduras, seu chapelão e vestido preto. E foi assim que ela passou a adquirir vários imóveis que lhe garantiram  a aposentadoria e herança de seus.
 
Aqueles italianos que não quiseram se enraizar na Colônia vieram para as adjacências da cidade aumentando o perímetro urbano. Aí tiveram suas padarias, mercearias e armazéns de secos e molhados.
 
Seus hábitos alimentares eram regados às massas, do macarrão ao capelete, e aos molhos, e saladas. Contrastavam aos de minha família, os hábitos. O nosso simples angu para eles era a polenta com queijos e carnes. Aos domingos, suas macarronadas incrementadas  contrastavam com nossa jantarada que paradoxalmente era o almoço mais tarde.
 
Às nossas broas eram complementadas com seus pães nas horas de nosso café – veio à boca o gosto de pão de coco. Nosso café da tarde era o seu lanche.

A diferença era ressaltada mesmo  entre minha mãe e a vizinha. Enquanto uma caprichava em seu minerês herdado lá da fazenda, a outra usava sempre o pronome oblíquo ao se referir à terceira pessoa em um charme danado de abuso linguístico:
- Martim, você ainda não me fritou os pastéis para o boteco? Assim as vendas não me rendem nada!
- Menino, não me caia desta árvore!
 
E aquelas peras em sua árvore serviu-me   doces reminiscências de outros tempos. Eu as comia com circunflexo: Pêras.
 
 
Leonardo Lisbôa
Barbacena, 08/01/2018
 
 
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Leonardo Lisbôa
Enviado por Leonardo Lisbôa em 12/01/2018
Alterado em 12/01/2018
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