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O Palco da Rua Central
 
Uma habilidade que se desenvolveu ao longo de minha carreira de professor foi a de observar ao redor. Tinha-se que estar atento aos 30 a 40 ou mais alunos em sala de aula além de explanar o assunto da aula. Mil olhos tem um docente! E mesmo assim os discentes conseguem fazer coisas não peculiares à sala de aula só para depois contar vantagens uns com os outros de como fizeram isto ou aquilo e ludibriaram o professor. Adolescer é um jogo de adequação ao poder. E a criatividade é inerente ao humano desde sempre.
 
Por isto quando saio à rua meus ouvidos tornam-se parabólicas e meus olhos radares. Ainda que quando eu estou relaxado muitas vezes não ouço ou entendo e mal vejo quem fala ou passa por mim em meu habitat natural. Meu filho reclama e eu lhe digo que estou adentrando o portão da senectude.
 
Saio de meu bairro e as antenas se conectam. Chego ao centro da cidade e adentro-me a um palco de teatralidades diversas.
 
Naquela manhã dobrei esquina. Era semana de pagamento de aposentados. A rua estava repleta de atores mais idosos e outros tantos costumeiros que por ali perambulam.
 
Duas senhoras do meio rural com seus trajes que denunciavam suas origens se cumprimentavam  e quando lhes traspassei no percurso uma dizia a outra ao seu modo:
- Pois é cumade, porque ocê sabe: nóis muié tem que cumpriender nóis mesmo. Nóis foi feita pá servir e agradá os homi. Intam, temos que nos uni e nos ajudá e rezar mui pá noss  sinhô te pena de nóis....
 
Segui soliloquiando  sobre este  discurso de conformismo que chegou até ao pós-moderno e é mantido sem nenhuma reflexão. E é repassado pelos próprios oprimidos. Discurso machista mantido por mulheres submissas que sofrem diretamente a ação desta barbárie e perpetuam sua situação.
 
Vale dar a voz a Simone de Beuvaoir:  “O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos”.
 
Mais à frente uma cena  me transportou à contemporaneidade com seus discursos de gênero e homoafetividades pela ação tão distinta ao que me causou reflexão tão próximo ao que testemunhei ao ter passado naquele palco anterior:  Um jovem na faixa universitária atravessou a rua em direção à praça onde se encontrava outro; foi lhe pegando na face com as duas mão e lhe ia dar um beijo na boca quando o confrontado, talvez constrangido pelo público,  desviou o rosto e recebeu o beijo na face. Os dois falavam a seguir efusivamente e dobrando-se um sobre o outro tapearam as suas bundas.
 
Segui em frente naquela passarela de humanidades que fervilhava de cenas e contracenas de gentes diversas.
 
Ao retornar entrei na mercearia. O passado se impunha novamente com o seu discurso de preconceitos. Um senhor dialogava com a moça do caixa e esta apontava para a companheira ao lado dizendo que era sua irmã mais velha.  Ele remexeu intimidades familiares e indagou:
- Então teu pai tem cinco fias muié?!
Ao ter a afirmativa da moça, ele inconformado com a resposta retrucou:
- Não tem ninhu fio home  não?!
Ao receber a negativa confirmando a certeza, ele arrematou o diálogo com a frustração:
- Coitado, né?! Cinco fia muié e ninhu home fio...
 
Exclamei comigo mesmo: Quanto preconceito!
 
Aquela manhã o palco urbano  se fazia de discursos e encenação temporal e anacrônicas:  o  ultrapassado coexistindo com o ultramoderno.
 
O historiador sabe que somos filhos de nosso tempo carregando todo um acervo cultural que nos faz mais ou menos humanos segundo a época e o meio que nos envolveu com suas (in)verdades contidas em seus discursos.
 
 
Leonardo Lisbôa
Barbacena, 07/04/2018
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L.L..
 
 
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Leonardo Lisbôa
Enviado por Leonardo Lisbôa em 13/04/2018
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